domingo, 7 de fevereiro de 2016

ENTREVISTA COM O PROFESSOR E POETA LEON CARDOSO PARA O JORNAL CORREIO BRASÍLIA E ANEXO 6



Entrevista com o poeta e escritor Leon Cardoso realizada pelo jornalista Evan do Carmo para o jornal Correio Brasília e para o jornal Anexo 6

LINKS DA ENTREVISTA:

http://correiobrasilia.webnode.com/news/entrevista-com-o-poeta-e-escritor-leon-cardoso/
 E 
 http://anexo6.com.br/2016/02/04/a-vida-de-um-professor-poeta/ 

BIOGRAFIA

Leon Cardoso da Silva é professor, escritor, pesquisador, poeta e músico. É natural da cidade de Jacobina, interior da Bahia. Possui graduação em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Junto a esta universidade desenvolveu o trabalho de pesquisa “Literatura Popular: da historiografia literária ao ensino em escolas da roça” vinculado à FAPESB e ao programa de pós-graduação desta mesma universidade. Escreveu seus primeiros versos em 2003 e, mas só publicou seu primeiro livro em 2012, intitulado “À margem do impossível” (poemas). Tem diversos textos publicados em periódicos como também em sites especializados em literatura. É autor dos livros: “Ensaios literários e filosóficos” (ensaios), “O Solitário Mário” (romance), “Literatura de Cordel: uma questão da historiografia literária brasileira” (crítica literária). “A máquina do mundo” (contos), Barco a vela, Etnografia do instante, À procura da poesia, Chuva de pedra, Poemas ásperos, Monólogos (todos de poemas), entre outros.

Como você descreve a poesia? Ela está acima de todas as outras artes, ou é ela a única arte que se exprime de tantas outras formas?

L.C: Descrever o que seja poesia é tarefa das mais fáceis e ao mesmo tempo das mais difíceis. Isso porque comumente não se fazem uma separação entre poesia e poema. Nas universidades, sobretudo nos cursos de letras, isso já foi bastante discutido e tenho uma grande tendência em pensar na mesma perspectiva do teórico Octavio Paz. Para mim, poesia é um estado poético e poema é a materialização deste estado. Em outras palavras, poesia é a sensação de beleza, de nostalgia, de contemplação, etc. Enquanto que poema é o texto escrito tendo como ponto de partida diversos estímulos proporcionados por esse estado poético. Nesse sentido, a poesia pode estar presente na música, no romance, nos discursos e na natureza de uma forma geral porque ela é a mais intensa das manifestações de beleza estética. Como poesia não é uma arte, visto que ela seja antes um estado de contemplação estética e não uma manifestação artística, ela não pode estar acima de alguma arte específica. Eu diria que a poesia é o fim último de qualquer arte e nesse sentido ela é superior a todas elas.

É possível conciliar a criatividade poética, que tanto depende de silêncio com o teu ofício de professor?
L.C: Como dizia o grande Fernando Pessoa: "ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar só". Penso que toda criação literária precisa de silêncio. Ainda que saiamos pelas ruas, como Charles Baudelaire fazia, para buscarmos “inspiração” para a escrita precisaríamos ainda assim do recolhimento para a produção escrita. O ofício de professor é também algo que se dá entre o silêncio e o barulho (risos). Talvez minha criatividade poética seja proporcional ao nível de silêncio que preciso para a produção escrita, mas isso não é uma obrigatoriedade para esta produção.  


Em tuas pesquisas, talvez tenhas base para indicar o que é boa literatura brasileira. Pode nos dizer se descobriu algum escritor contemporâneo com potencial de se tornar um grande clássico como Machado de Assis?

L.C: O limite entre boa e má literatura é muito tênue. Muitas vezes depende de como entendemos o que seja a literatura. Anteriormente eu havia me referido ao fato de que poesia seja um estado poético e poema seja a materialização desse estado. Isso não quer dizer, entretanto, que todo e qualquer poema seja repleto de beleza e de estímulos poéticos. Isso significa que pode haver um poema sem poesia. É a morte do poema. Um texto literário que não consiga transmitir certos estímulos de contemplação e satisfação poética, isto é, que não nos toque a sensibilidade a ponto de sentirmos sensações como as do belo e do sublime, esse texto poderá ser enquadrado como uma literatura inferior. Se analisarmos a literatura contemporânea veremos diversos textos que não conseguem alcançar seus objetivos e perdem-se na perspectiva do próprio ator. Até me atrevo a dizer que nunca se descobriram tantos escritores como em nossa atualidade. Isso porque a internet proporciona essa expansão e exposição de textos literários diversos e atuais. Acontece que divulgação não implica em qualidade estética. Por isso, não acredito que em nossa contemporaneidade exista algum escritor com potencial para se aproximar de Machado de Assis que foi o maior escritor da literatura brasileira.

Morando no nordeste brasileiro, lugar de dificuldades econômicas, como consegues divulgar e vender os teus livros?

L.C: Exatamente, o nordeste, sobretudo o sertão nordestino, apresenta sérias dificuldades econômicas. No meu caso, essa dificuldade se dissipa, em partes, porque a internet proporciona chegarmos longe, no que ser refere à divulgação literária. Além disso, há a possibilidade do autor mesmo vender seus livros nas ruas. Foi isso que fiz ao publicar meu primeiro livro, os quais vendi mais de 40 exemplares em uma única semana. É isso que nossos escritores cordelistas fazem.

Como professor, procuras influenciar os teus alunos a se tornarem poetas e escritores? Como fazes? E eles têm reagido?

L.C: Sempre procurei influenciar meus alunos não só a se interessarem pela literatura, mas também em produzirem seus próprios textos. Mas confesso que não é tarefa das mais fáceis (risos). Até estou escrevendo um livro sobre o fracasso do sistema educacional brasileiro onde faço uma reflexão sobre isso. Este sistema educacional está repleto de tradicionalismos que não estimula o aluno a pensar por si próprio, a querer interferir no mundo, a se desapegarem do fácil e do conveniente. A maior parte dos alunos está interessada apenas em adquirir notas para serem aprovados. Esta é a perspectiva que estão acostumados e que suas famílias, as que se interessam pelo desenvolvimento intelectual dos filhos, que é a menor parte, exigem. Mas estou remando contra a corrente e tenho tido alguns resultados satisfatórios. Nas minhas atividades procuro ser dinâmico e exploro os meios mais significativos para eles, como leitura de textos na internet e livros impressos, levo meus próprios livros e, com isso, eles percebem que também podem escrever. 

Descreva para nossos leitores, com o teu olhar apurado de poeta, de águia social, qual é a real situação do Brasil político nesta região?

L.C: A região em que moro está localizada no oeste baiano, mais precisamente no interior da Bahia a cerca de 250 quilômetros de Salvador que é a capital desse estado. A situação política dessa região é marcada por polaridades regionais, mas a presença mais forte é do estado e do governo federal. As prefeituras não têm autonomias por que precisam dos aspectos fiscais e econômicos. Isso faz com que o cenário político se desenhe com a presença, sobretudo, dos deputados estaduais e federais. Quando a região elege, por exemplo, um deputado federal ou estadual do próprio lugar geralmente este consegue dar um destaque maior para a região, diferentemente dos que aparecem buscando apenas alianças políticas. Portanto, nessa região o estado e o governo federal só tornam-se presentes quando há a presença mais significativa dos deputados.

Qual deve ser o papel do intelectual brasileiro, no teu ponto de vista, sobre as questões políticas atuais?

L.C: O intelectual brasileiro tem a obrigação de interferir em qualquer questão política da atualidade. Isso porque o intelectual não pode estar alheio a realidade. Ele tem autonomia para pensar por si próprio, ao passo que a maior parte das pessoas comuns infelizmente não tem. Isso faz da intelectualidade um sacerdócio ou uma responsabilidade.

Indique para nós as tuas referências literárias.

L.C: Sempre li muito. Com os livros descobri que não preciso viver cinquenta anos para aprender determinadas coisas. O que muitos aprendem em uma vida, certamente outros aprendem apenas com a leitura de um bom livro. Portanto, a leitura foi uma das minhas mais importantes decisões. Por isso, leio sobre diversas áreas diferentes. Com relação à literatura minhas referências como escritores foram: Graciliano Ramos, Machado de Assis, Octávio Paz, Manuel Bandeira, Victor Hugo, Cruz e Sousa, Castro Alves, Rubem Fonseca, Mário Quintana, Vinicius de Moraes, Cecília Meireles, entre outros.

Indique também onde encontrar teus livros

L.C: Meus livros podem ser encontrados no Clube de Autores pelo site: www.clubedeautores.com.br  ou através do link https://www.clubedeautores.com.br/authors/10208
E pelo blog: www.marbravio.blogspot.com


Mande-nos 3 poemas para publicarmos junto à entrevista.


EPITÁFIO DE POETA

Aqui jaz um poeta
Com sua métrica amada
Guardando consigo
Sua prosa versificada.

Aqui jaz um poeta
Com seu lamento
Metrificando engenhoso
O pensamento.

Aqui jaz um poeta
Com sua forma
Que morreu de enfarte
Pela arte.

Aqui jaz um poeta
Com seu canto
Que não saiu
De um pranto.

Aqui jaz um poeta
Com seus amores
Que não saiu
De suas dores.

Aqui jaz um poeta
Com sua parte
Com sua linguagem
Com sua arte.

Aqui jaz um poeta
Com seu suporte
Que bem versou
Até sobre a morte.

Aqui jaz um poeta
Bem adequado
Que honrou as gentes
De seu estado.

Aqui jaz um poeta
Comovido
Que decidiu
Ser atrevido.

Aqui jaz um poeta
Com sua lousa
Onde escrevia
Suas coisas.

Aqui jaz um poeta
Em sua dormida
Que bem soube
Viver a vida.

Aqui jaz um poeta
Eu asseguro
Que da poesia
Construiu um escudo.

Aqui jaz um poeta
Que se afeta
Com seu pensar
Como um asceta.

Aqui jaz um poeta
Com sua luz,
Mas não sabe
Do peso da cruz.

Aqui jaz um poeta
Que não definha
Se eternizando
Na entrelinha.

Aqui jaz um poeta
Sem covardia
Bem acomodado
Nesta moradia.

Aqui jaz um poeta
Acrobático
Pois se equilibrou num verso
Sistemático.

Aqui jaz um poeta
Não sei se ateu
Mas não era
Europeu.

Aqui jaz um poeta
Que abdica
Toda a fama
De uma vida.

Aqui jaz um poeta
Com sua idealização,
Mas ainda bate
Seu coração.

Poeta não morre
Apenas passa para um estado
Versificado.


PARA AUGUSTO DOS ANJOS

Somos filhos do carbono e do amoníaco.
Interrogações hipocondríacas.
Somos sopros análogos a ânsias
Células nervosas, cardíacas.

Somos todos noctívagos errantes
Que ficam por trás de um cigarro
Quando a exata boca de “Deus”
Ensaia seu mais que divino escarro.

Somos todos forasteiros
Vivendo neste mundo como fera
Esperando o fim que tudo acera.

Somos todos de ruínas constituídos.
Vivemos insondáveis na espera
Sob “a influência má dos signos do zodíaco”.


NÃO SEI
Para Cecília Meireles

Não sei se fico
Não sei se passo,
Não sei qual a cadência
Deste compasso.

Não sei se a vida
É um rio raso,
Não sei se o tempo
Abarca o todo
Neste campanário.

Não sei se fico,
Não sei se passo,
Não sei se me construo
Ou me desfaço.

Não sei, não sei
E isso é tudo.
Só sei que um dia
Estarei mudo.


Livro de gramática - morfologia



PALAVRAS DO AUTOR

         Este livro tem como objetivo tornar a ideia de gramática uma coisa mais acessível para as pessoas no sentido de fornecer-lhes ferramentas práticas para esta reflexão. Na maioria dos capítulos tem exercícios que facilitam a prática do conteúdo estudado. Livro indicado para professores e para estudantes de uma forma geral, bem como para quem deseja estudar para concursos. Como este é o primeiro volume de uma série que busco realizar. As outras partes sobre fonética, semântica e sintaxe estão em construção, mas nada que impeça de que a morfologia e estas outras partes sejam estudadas separadamente. 


Link para acessar a página do livro:

http://www.clubedeautores.com.br/book/202582--GRAMATICA_PRATICA_DO_PORTUGUES_BRASILEIRO_MORFOLOGIA?topic=linguagemartisticaedisciplinas#.VreQFm6YHKA

Livro: ENTRE DOIS MUNDOS: A SAGA DE JOÃO PARA COMPREENDER A POSSIBILIDADE DE UM (NÃO) DEUS




PALAVRAS DO AUTOR


Este é um dos livros que, sem apego doutrinário ou religioso, tem o objetivo de fazer o leitor refletir acerca não somente da possibilidade ou impossibilidade da existência de uma divindade ou de algum “Deus”, mas também, busca fazer uma reflexão sobre nós mesmos como espécie distinta de seres vivos. Mas, como o universo não se reduz a um planeta e a uma espécie de ser vivo, este livro pode contribuir para que você reflita sobre, talvez, um ponto de vista que você não conhecia ou não esteja acostumado a ver. Não existem certezas inquestionáveis. Se sondarmos tanto a ciência, quanto à religião perceberemos que verdades devem ser questionadas para que alguns juízos sejam testados e postos à prova. O que resistir ao tribunal da razão, certamente, terá mais fundamentos para ser aceito. Por que a necessidade de entendermos o mundo a nossa volta? – alguém pode se perguntar. Porque vivemos cercados de seres vivos e não vivos, nossa relação com outros seres e com a natureza é marcada pela convivência, pela interação e pela reciprocidade. Somos finitos, e deste ponto de vista nossas ações devem ser baseadas em características que valorizem a vida atual e o momento presente, não necessariamente uma possível vida depois da morte. Por quê? Porque, antes de tudo, somos seres que estão submetidos às leis da natureza. Nascemos, crescemos, nos “reproduzimos” e morremos. Nossa vida é marcada de momentos, momentos estes que em união ou conjunto formam o tempo. Mas nosso tempo é o presente, pois nem vivemos no futuro, nem vivemos no passado. Vivemos num momento que se eterniza no presente e projeta um futuro imaginário e um passado memorável.
Por isso este livro tem sua razão de ser. É uma romance onde nosso personagem sai na aventura de provar a possibilidade ou impossibilidade de uma divindade. Por que um romance? Ora, o diálogo é o que organiza nossas vidas em sociedade. Este romance, mais parecido precisamente com um conjunto de contos, se estrutura a partir do discurso da dúvida metodológica, das visões amplas sobre o universo e das observações reducionistas acerca da compreensão de “Deus”, numa perspectiva religiosa.
Assim, o protagonista da narrativa parece estar preso em dois mundos distintos: o mundo da fé ou da religiosidade e o mundo da ciência. O mundo das certezas inquestionáveis e o mundo da dúvida e das probabilidades. Como organizar este caos de oposições perpétuas? Como olhar para o próximo e dizer: pronto somos isso, o universo é dessa forma porque a verdade me foi comprovada numa noite escura de insônia após uma longa observação dos astros ou, poderei dizer, pronto a vida precisa beber na fonte inesgotável da cachoeira da vida.
Há duas verdades estabelecidas que se confrontam ininterruptamente. Por isso é preciso uma investigação e um preparo prévio para sondarmos outras vertentes ao fazermos o percurso da observação meticulosa para a reflexão sensata e livre.

Link para acesso da página do livro:
http://www.clubedeautores.com.br/book/203089--Entre_dois_mundos?topic=ficcaoeromance#.VrePVW6YHKA

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

ANIVERSÁRIO





Meu corpo está morrendo. A cada palavra, meu corpo está morrendo. Cada palavra é um fio de cabelo a menos, um imperceptível milímetro de ruga a mais - uma mínima extensão de tempo num acúmulo cada vez mais insuportável. (Caio Fernando Abreu: Inventário do ir-remediável).
19 de agosto. Que data terrível para se comemorar um aniversário. Para falar a verdade não há data boa para se comemorar aniversário. Aniversário não é coisa para se comemorar. Por que alguém teria motivos para comemorar o dia simbólico que marca a sua velhice? Por que alguém iria se debruçar sobre uma data que faz referência ao seu nascimento, mas na verdade simboliza a sua velhice? É um dia a mais, uma semana a mais, um mês a mais, um ano a mais. E tudo isso não seria, em resumo, a velhice? Tenho para mim que comemorar aniversário é comemorar a velhice e a morte porque com o tempo envelhecemos e envelhecer é morrer cada vez mais todos os dias.
Festa de aniversário é a mais perfeita celebração da velhice.
Ele também pensava assim como eu e resolveu sair de casa para que não lhe fizessem surpresas. Pensou em ir para um lugar distante e difícil de ser encontrado. Iria levar consigo duas peças de roupas, uma escova de dentes, um pente, um creme dental, uma antologia de poemas norte americanos, os Ensaios de Emerson também iriam na bagagem, mas dificilmente ele pegaria este livro. Saiu escondido para ninguém o ver e não estragarem seu dia, não suportava alguém dizendo “feliz aniversário”.
Felicidade em saber que estava ficando mais velho? Ora, ora, isso para ele era o cúmulo do absurdo.
Saiu com pressa, como que se estivesse atrasado para o enterro de algum parente próximo e idoso, como se o tempo estivesse passando mais rápido para ele do que para os outros, como se a vida lhe acenasse da sacada de um prédio enorme e ameaçasse pular de lá de cima, se jogar no vento e se precipitar no chão, como se as horas se transformasse em minutos ou os minutos em segundos, como se os milênios se transformassem em séculos e os anos em dias. Ele saiu apressado, olhando para o relógio que apertava seu pulso esquerdo para que ele, com o incômodo, não se esquecesse que o tempo está passando a todo momento, passando muito mal educadamente sem pedir licença.
Abriu a porta da casa, saiu, fechou-a e foi caminhando devagar. Devia ser umas cinco horas da manhã, pois o sol ainda não havia despertado. Entrou no fusca prata, ligou o rádio para ouvir alguma coisa que lhe fizesse parar de pensar na data que todos os anos lhe perseguia, no rádio tocava uma música que ele achou até interessante no começo, pois tinha um instrumental muito bem trabalhado, com solos de guitarra, bateria cadenciada, alguma coisa como Van Halen e Pink Floyd, mas em seguida entrou um vocal rouco cantando a seguinte letra: 

Hoje é o dia
E mais um ano se passou
Eu posso falar de meus amores
Sem covardias
De minhas dores,
Porque hoje é o dia
Sem covardia
Da grande celebração da vida.
Eu nasci, você nasceu
E estamos aqui
Todos os dias
Cantando este momento lindo
Em que ficamos mais velhos,
Experientes neste campanário
Porque hoje é o dia de nosso aniversário. 

Ele desligou o rádio antes da música acabar. Melhor dizendo, deu um soco no aparelho que em seguida parou de tocar. Colocou a chave na ignição, ligou o fusca possante e saiu em disparada no meio da rua “hoje é o dia”, pulou um quebra-molas perto da esquina que dava acesso a uma grande praça onde tinha um relógio enorme no centro “mais um ano se passou”, olhou para o relógio da praça e percebeu que este estava muito adiantado, pois comparado ao seu aquele não poderia estar certo, “Cantando este momento lindo em que ficamos mais velhos”. Tentou esquecer, mas a música não saiu de seus ouvidos e o seguiu na Avenida ACM “experientes neste campanário, hoje é o dia de nosso aniversário”.
Após umas duas horas percorrendo a cidade, passando em lugares que nunca tinha ido resolveu parar ao avistar uma pousada. Ao aproximar-se leu o letreiro que dizia assim: “Pousada Sossego”. Certamente ali seria um ótimo lugar para se esconder por vinte e quatro horas, até que passasse o último segundo daquele dia, mas para seu desassossego ao aproximar-se leu outras letras menores, mais parecendo um aviso do que uma propaganda ao lado do nome da pousada: “PROMOÇÃO! Diárias pela metade do preço porque hoje comemoramos 25 anos de serviço prestado a você”.
“Sossego uma porra!”, pisou no acelerador do fusca com tanta força que quase afundou o assoalho, saiu em disparada, fechou um caminhão de gás, atravessou o sinal vermelho e quase atropela uma mulher idosa que ia caminhando com dificuldade sobre a calçada. “Sossego uma porra!”- repetiu em voz alta. Viajou por mais cerca de meia hora e parou em um posto para abastecer, pois a gasolina do fusca já estava na reserva.
– Bota quanto? – o frentista perguntou apressado, pois tinha mais três clientes para ele atender.
– Sei lá, completa aí.
– Está indo pra longe?
Ele olhou assustado para o frentista e ficou em silêncio por alguns segundos. Não queria dizer para onde ia, na verdade não saberia dizer, só sabia que estava em fuga até que terminasse aquele dia.
– Vou para o norte. – respondeu disfarçadamente.
– Ôpa! O lugar é bom. Hoje vai ter um festão lá. Vão comemorar o aniversário da cidade.
– Mas que diabos! Parece que o mundo inteiro resolveu comemorar aniversário hoje!
O frentista olhou pra ele e perguntou – hoje é seu aniversário também?
Ele ficou em silêncio por alguns instantes. Sem querer responder a pergunta entrou no fusca com muita pressa. Deu o dinheiro da gasolina pela janela, recebeu as chaves e antes do frentista lhe falar mais alguma coisa ligou o fusca e saiu em disparada no meio da avenida.
Viajou por muito tempo em direção ao sul. Só queria um lugar para passar o dia. Um lugar escondido, que nenhum de seus conhecidos pudesse vê-lo. Que ninguém soubesse que aquele era o dia que simbolizava a sua velhice, e o pior é que ainda faltavam muitas horas para o dia acabar. Ainda ia ter que suportar com muita força a ideia de envelhecer, uma coisa que quase insuportavelmente ficava martelando-lhe a cabeça. “Hoje é o dia”, pulou outro quebra-molas “mais um ano se passou”, mais outro quebra-molas, aquele seria um péssimo lugar para quebrar o fusca, diminuiu a velocidade e avistou um lugar parecido com uma pousada, era uma casa muito afastada das outras. Parou em frente e leu um letreiro enferrujado: “Pousada Nova”. De todos os lugares no mundo aquele deveria ser o mais adequado para alguém que estivesse em fuga no dia de seu aniversário.
Entrou, pediu um quarto, a recepcionista pediu sua identidade, mas ele disse que não estava com ela, mentiu. A mulher rabugenta, com um cigarro de fumo no bico deu uma cusparada no chão, passou o pé em cima e fez uma lista meio amarelecida no chão, chutou uma ratoeira com um pobre rato preso pelo pescoço para debaixo do balcão e cedeu a chave.
– Quarto 19! Fica no fim do corredor à direita de quem vai, a esquerda de quem vem. – insistiu em completar a informação – uma porta marrom.
– Tem banheiro?
– Só esse aqui do térreo.
Ele não se importou. Pegou as chaves e foi em direção ao quarto. Percebeu que todas as portas eram marrons. Com as vistas um pouco embaçadas teve um pouco de dificuldade para enxergar o número 19 em uma delas. Ao lado do número 19 era para ter o 18, mas tinha um 11, dois números enamorados tão distantes e tão perto ao mesmo tempo. De qualquer forma, colocou a chave na fechadura e a porta cedeu sem dificuldades. Entrou, deitou na cama olhando para o teto e teve a impressão que ao longe alguém cantava “parabéns pra você”. Fechou os olhos como quem dorme e adormeceu como quem morre. 

(LEON CARDOSO)

segunda-feira, 16 de julho de 2012

ETERNO RETORNO














O dia começou
O home abriu a loja,
O estudante passou para a escola,
O padeiro abriu a padaria,
A mulher varreu o passeio,
O gari pegou o lixo,
Uma criança chorou,
Outra criança chorou
Num coro de choro e vozes...
A tarde chegou
O homem fechou a loja,
O estudante brincava na rua,
O padeiro preparava outra massa
A mulher fazia café
O gari saia do trabalho
A criança dormiu tranquila
A noite chegou
O galo gritou...

O dia começou
O home abriu a loja,
O estudante passou para a escola,
O padeiro abriu a padaria,
A mulher varreu o passeio,
O gari pegou o lixo,
Uma criança chorou,
Outra criança chorou
Num coro de choro e vozes...
A tarde chegou
O homem fechou a loja,
O estudante brincava na rua,
O padeiro preparava outra massa
A mulher fazia café
O gari saia do trabalho
A criança dormiu tranquila
A noite chegou
O galo gritou...

O dia amanheceu
O homem abriu a loja...

DIAGNÓSTICO












– Sim senhor doutor
Qual o meu problema?

– A vida meu caro, a vida.

– Sim, mas qual a solução?

– A despedida meu caro, a despedida.

– Sim, mas como?

– Afogamento no Oceano Atlântico.

– Mas doutor, para quê tanta água
Se posso me afogar neste copo?