segunda-feira, 16 de julho de 2012

ETERNO RETORNO














O dia começou
O home abriu a loja,
O estudante passou para a escola,
O padeiro abriu a padaria,
A mulher varreu o passeio,
O gari pegou o lixo,
Uma criança chorou,
Outra criança chorou
Num coro de choro e vozes...
A tarde chegou
O homem fechou a loja,
O estudante brincava na rua,
O padeiro preparava outra massa
A mulher fazia café
O gari saia do trabalho
A criança dormiu tranquila
A noite chegou
O galo gritou...

O dia começou
O home abriu a loja,
O estudante passou para a escola,
O padeiro abriu a padaria,
A mulher varreu o passeio,
O gari pegou o lixo,
Uma criança chorou,
Outra criança chorou
Num coro de choro e vozes...
A tarde chegou
O homem fechou a loja,
O estudante brincava na rua,
O padeiro preparava outra massa
A mulher fazia café
O gari saia do trabalho
A criança dormiu tranquila
A noite chegou
O galo gritou...

O dia amanheceu
O homem abriu a loja...

DIAGNÓSTICO












– Sim senhor doutor
Qual o meu problema?

– A vida meu caro, a vida.

– Sim, mas qual a solução?

– A despedida meu caro, a despedida.

– Sim, mas como?

– Afogamento no Oceano Atlântico.

– Mas doutor, para quê tanta água
Se posso me afogar neste copo?

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Carta a Valdeck Almeida de Jesus
















Meu caro escritor, jornalista, poeta e ativista Valdeck! Bem que eu poderia começar esta carta falando de tuas louváveis qualidades literárias, mas vou me segurar um pouco. Não quero que a crítica se refira a mim como um de teus amigos íntimos e, por ventura, desqualifique estes meus breves raciocínios. Se bem da verdade, eu não me importo muito com palavras alheias que por sua vez podem desqualificar uma inclinação para a produção literária que julgo ter quando o ponto de minha observação se localiza nesse nosso imenso estado baiano. Confesso. Sou um apreciador dos escritores baianos. Mas isso não torna minhas observações tão sem crédito assim. Por ventura nossa crítica contemporânea não carrega uma carga de inclinação subjetiva e partidária, às vezes até emotiva?
            Pois bem. Deixemos de lado o que podem dizer e nos apeguemos ao que deve ser dito. E o que deve ser dito? Quais as palavras mais acertadas para falar de um escritor que não para sequer um minuto para dizer: pronto, vou descansar um pouco. Vou tirar férias da literatura. (risos).
            Obviamente este não é o teu caso. Você é uma das pessoas mais ativas que conheço, isso para ficarmos apenas no campo da literatura (risos).
            Você é uma interrogação muito boa de ser descoberta. Quando pensamos que não resta mais nada para fazer vem você e nos mostra que inúmeras são as possibilidades. Estou falando isso pelo fato de recentemente eu ter descoberto algo que tu fazes e que julgo importante para a nossa literatura brasileira, de uma forma geral. Refiro-me a tua produção de literatura de cordel. Esta é uma das mais relevantes literaturas das quais temos conhecimento.
            Faz alguns anos que estudo literatura de cordel e minha monografia apresentada na Universidade do Estado da Bahia (UNEB) foi exatamente sobre esta literatura e teve o seguinte título “Literatura popular: da historiografia literária ao ensino em escolas da roça” (2011) monografia que foi o resultado de uma pesquisa de mais de um ano vinculada a FAPESB e ao núcleo de bolsas de iniciação científica da UNEB. Recentemente produzi outra pesquisa ainda mais intensa que resultou num livro chamado “Literatura de cordel: uma questão da historiografia literária brasileira”.
            Agora você deve estar entendendo melhor o que falei no primeiro parágrafo deste texto quando me referi a minhas prováveis inclinações para analisar certos aspectos literários. É que me considero um amante da literatura de cordel, e vem você e joga três de suas obras de cordel nas minhas mãos. (risos).
            O que devo fazer ao considerar-me um amante e pesquisador desta literatura tendo em mãos obras tão bem escritas de um escritor baiano?
            Recebi pelos correios o teu envelope e confesso que o abri com muita pressa. Nele haviam três cordéis: “Picão encantado” que eu bem poderia classificá-lo como gracejo se eu fosse designado a encará-lo de acordo com uma classificação temática, o segundo “Mulher-Ketchup” tematicamente mais voltado para o jornalismo e o terceiro cordel “Jorge Amado (1912 – 2012) cem anos do nascimento” que é um cordel de celebração em homenagem ao centenário deste nosso escritor tão bem conhecido mundialmente e tão bem valorizado sobretudo por nós baianos e brasileiros.
              São três cordéis, a meu ver, muito bem escritos e podem ser incluídos entre os melhores que li neste primeiro semestre de 2012, e olhe que não leio pouco.
            No cordel “Picão encantado” você começa por um ponto muito relevante que é a mistura de suspense e mistério que faz referência ao órgão sexual masculino:

Vou contar a história
De um grande personagem
Que vive todo encolhido
Com medo de sua imagem
Ser espalhada nas ruas
Desta e de outras paragens (p.01).

            Estas colocações causam certo impacto no leitor e acaba por prendê-lo na escrita já provocando os primeiros impulsos de comicidade. É uma ótima introdução para cordéis que buscam explorar esta característica.
            No outro cordel “Mulher-ketchup” você explora um acontecimento muito retratado nos jornais regionais e nacional referente à cidade de Pindobaçu, interior baiano. Os seguintes versos me chamaram a atenção:

Tudo foi para o jornal
Onde tudo foi parar
O que era um segredo
Divulgado agora está
E o crime encomendado
Virou piada de matar (p.01).

            Você faz uma boa junção entre jornalismo e gracejo e a meu ver o tom jornalístico prevalece em relação ao gracejo, embora o caso que é verídico já seja um gracejo por si próprio.
            No outro cordel “Jorge Amado (1912 – 2012) cem anos do nascimento” que no meu ponto de vista é o mais bem escrito você faz uma homenagem muito rica ao grande Jorge Amado. É ideal para aqueles que buscam conhecer este escritor, pois você com muito critério aborda diversos elementos da vida e da obra do referido escritor:

Muito amado o nosso Jorge
Por baianos e estrangeiros
Escritor e jornalista
O maior e o primeiro
Natural de Itabuna
Este grande brasileiro (p.01).
(...)
Fez carreira na política
Foi deputado federal
Mas o brilho da criatura
Foi além do que é normal
Pois os livros o levaram
A brilhar mais que o astral (p.03).

            Todos os folhetos foram escritos em forma de sextilhas seguindo o esquema de rimas A B C B D B em que versos livres e rimas se entrecruzam. Esta é a construção mais explorada por escritores cordelistas atuais.
            Espero conhecer mais sobre tua obra e agradeço muito pela cordialidade de ter me enviado teus cordéis. Teu primeiro livro “Memorial do inferno: a saga da família Almeida no jardim do Éden” que também tive o prazer de ler é recomendável para aqueles que precisam conhecer a trajetória de alguém que com muito esforço conseguiu vencer as adversidades e conquistar inúmeras coisas.


Se de mim precisares da algo ficarei agradecido em te servir

Jacobina, 27 de junho de 2012

Atenciosamente
Leon Cardoso da Silva

                  

sábado, 9 de junho de 2012

Novo livro: MONÓLOGOS



















POEMAS DO LIVRO

A VIDA

A vida
É ávida
E sentida.

A vida
Nem sempre
É comedida.

A vida
Nem sempre
É compreendida.

A vida
Ávida
E sentida
Só alcança sua plenitude
Quando conhece
Que a maior virtude
É a lida.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

EIS












Eis segredos
Que ficaram perdidos,
Pois ninguém quis contar.

Eis palavras
Que ficaram mudas,
Pois ninguém quis falar.

Eis protestos
Que ficaram incertos
À beira do mar.

Eis poemas
Com seus emblemas
Que tudo diz
Mesmo sem falar.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

O CIGARRO















Acendi um cigarro.
Pronto.
Falei.

Até pensei
Em destruí-lo
Aos poucos,
Mas o desgraçado
Foi mais forte que eu
E deu-me tonturas
Insuportáveis.

Sua fumaça
Abafou meus pulmões,
Destruiu minha célula preferida,
Arranhou minhas cordas vocais
E não satisfeito
Causou ardência em meu peito.

E foi
Por causa desse desastre
Inevitavelmente
Malogrado
Que então pensei:

Como não posso vencê-lo
Na briga
Deixo-o para os desgraçados
Que na guerra
Estão mais que acostumados
A perder a luta.

FOME



Fome, fome
Mais que nome
Fácil e pesaroso.

Fome, fome
Tem quem não come
Não por falta de apetite
Nem por falta de nome.

Fome, fome
Mais que nome.
O miserável
Tem fome
E o corrupto
Filho de uma puta
Tem seu estômago cheio
E não sabe do sentido exato
Da fome
Nem quer saber
Deste nome.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

CAOS










A linha se extinguiu
E o mundo ficou perdido no caos.
A cor que existiu
Ficou entre a luz e a escuridão.

A rasura se partiu
E o caos se intensificou,
Pois o rochedo cobriu
Toda a ordem que restou.

Foram-se os conceitos,
Foram-se as certezas,
Foram-se os preceitos
Juntos com a lucidez
Desde a primeira vez
Com as correntezas.

Tudo quanto restou
No meio do caos se sumiu,
No meio do caos se ficou
E junto com o caos se indefiniu.

LONGE DO MAR















Longe do mar
Cerrou-se o leme,
Quebraram-se os barcos
E deles tiraram as velas
Para alumiarem as noites
Escuras e sonolentas.

Longe do mar
Meus braços cansaram-se
Porque gastaram todas as suas forças
Para arrastar meu corpo
Como se arrasta um barco
Sem água.

Longe do mar
A gravura sobre a rocha
Entra na pedra
Na busca desenfreada
Pela última gota do mar
Que ficou perdida
Neste recôndito
Mais fundo.

A IMAGEM EM MOVIMENTO













A imagem em movimento
Quis guardar para si
A nudez de todas as árvores,
As expressividades de todas as palavras
E o movimento universal de todos os astros.

A imagem em movimento
Queria também a pureza da tinta branca,
O azul mais fundo
Do único céu que cobre o mundo.

A imagem em movimento
Queria que todos os sinos calassem para sua passagem,
Que o forte redemoinho que arrasta as vidas
Fosse diminuindo à medida que ela andasse para o norte
E as pessoas tão pesarosamente
Fossem se acostumando com a ideia da morte.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

EU CONFESSO


Daqui olho a cidade
E confesso ter muita saudade
De caminhar nas ruas
Sem o medo que agora me mede.

Confesso ter agora mesmo
Pensamentos mais pesados do que posso
Com todas as minhas forças carregar
E mesmo bem preparado fisicamente
Não está bem preparada
A minha mente.

Confesso que daqui de minha parada
Onde quase todos os dias
Observo a cidade
Fica um pedaço de mim
Quando vou para o quarto
E adormeço num sonho
Que me leva tontamente
Para uma degradação que me invade.

Dormir
É
Estar
Morto.

DIAS















Há dias que a alma parece querer
Pular para fora de meu corpo.

Há dias que meu coração
Também quer fazer o mesmo movimento.

Há dias que me bate uma descrença
Ininterrupta e infundável.

Há dias que cogito alucinadamente
E me bate uma desconformidade psicológica
Que até minha matemática objetiva
Perde a lógica.

A onda



 








A onda vem.
A onda vai
E neste vai e vem
Anda a onda.

A onda vibra.
A onda fica,
Pois a onda tem
Expressividade
Presumida.

A onda divaga.
A onda se alaga,
Pois andando
A onda
Parte e fica.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Carta a Anderson Braga Horta




Estava eu aqui a me abanar como os diabos, com um calor que não faz inveja a nenhum deserto estrangeiro ou africano, como bem se queira dizer, acrescente-se a isso um tédio daqueles que afetam tão acuradamente os pobres espíritos cansados das mesmices insuportáveis quando alguém me bate a porta. Muito relutantemente resolvo abri-la, para meu bem, e vejo uma pessoa bastante conhecida (meu pai) que me coloca na mão dois pacotes de um papel branco com dois grandes carimbos que logo percebi se tratar de uma encomenda postal.
Ainda me abanando como os diabos, digo isso porque na Bahia, meu estado por natureza, agora em 2012 estamos vivendo a pior seca dos últimos 30 anos. E pasme, meu caro poeta, não vivo no sertão e aqui chove um bocado às vezes uma chuva tão pingada que a terra se afunda nos pontos mais ressecados. Sempre uma chuvinha que vem como quem não quer nada, como quem não quer molhar, mas molha de tempos em tempos. Ah! Como eu queria que estas chuvas esparsas molhassem a sequidão do coração de tantos desafortunados que vejo ininterruptamente diariamente ao meu redor perambulando nesta vida sem saber realmente para onde vão.
Mas tudo bem, como que eu estava a dizer, recebi o envelope nas mãos e não tentando controlar minha sanha curiosa como a peste resolvo, sem demora, ler as palavras escritas nos dois envelopes que recebi. Neles estava escrito o seguinte: ao poeta Leon Cardoso. No verso, em forma de carimbo estava o nome do remetente: Anderson Braga Horta. Num primeiro momento fiquei lisonjeado de alguém estar a me chamar de poeta, pois isso é uma das designações mais superiores que alguém possa fazer referência a outrem. Ser poeta, para mim é uma tarefa tão sublime, tão significativa e tão superior que se bem da verdade não sei se mereço tão superior designação, embora eu faça meus versinhos despretensiosos e ache a melhor das honras ser definido como tal.
 Logo quando vi o nome do remetente minha sanha curiosa se intensificou de tal forma que até agora tenho dó dos envelopes me posto às mãos (risos). É que lhe tenho poeta (Anderson Braga Horta) como um dos maiores poetas da atualidade, um dos maiores escritores e, agora, uma das pessoas mais generosas a bem falar de sua iniciativa em saciar com seus versos a fome poética de um leitor tão longe geograficamente.
Nos volumes entregues pelos correios estava duas obras que até agora eu só tive o prazer de vê-los pela internet, quer dizer, não o conteúdo dos livros, mas tão-somente suas capas muito bem feitas por sinal. Os livros são “Soneto Antigo” e “Signo” como tu bem sabes poeta. Para não dizer que não conheço nada destas obras vale dizer que nelas há alguns poemas que tu divulgaste na internet. E devo dizer que os li com muito prazer. Ainda bem que existe a internet para conhecermos poetas como você.
Entretanto, embora eu tenha lido alguns poemas destes respectivos volumes pela internet, devo advertir que nada substitui pegarmos o livro impresso nas mãos, folheá-lo, sentir sua densidade da mesma forma que sentimos a viração amena num dia quente, como é o meu caso neste dia de hoje. Teus livros apareceram para mim como estas virações agradáveis para refrescar minha alma e acalmar o meu tédio.
Por isso quero muito agradecer tua iniciativa de enviar-me estes dois volumes sem cobrar-me nada por tão generosa iniciativa. Para falar a verdade, tua iniciativa tão cordial se de mim fosse cobrado algo por ela eu, certamente, não teria um valor para ti reembolsar não pelo custo de teus livros, mas de tua cordialidade tão necessárias para nossos tempos carecidos destes valores. Por isso, quero te dizer que teus livros não ficarão jogados na minha pequena biblioteca, perdidos em meio a outros que tenho, mas serão lidos, possivelmente relidos e passados para outros de meu círculo de amizade lê-los. Procurarei a melhor interpretação, a melhor inclinação intelectual, um melhor ângulo e, igualmente, um melhor juízo para interpreta a tua obra.
Nesse sentido devo dizer que como poeta não poderia deixar de te remeter, nesta carta, alguns de meus poemas certamente mais significativos para o autor, se os leitores se sentirem tocados por eles a poesia estará, por sua vez, cumprindo o seu papel ao poeta não mais que o seu dever. Assim, vou te deixar uns versos que saíram de minha lavra após eu ler alguns de teus poemas. Eu tenho o costume de ler os grandes poetas e aprender algo com eles e, de você e de Quintana, aprendi que o poema verdadeiro é aquele que “dá a impressão de estar lendo a gente e não a gente lendo ele”.


Quando nasci
  
Quando nasci um anjo amigo
disse-me: vai ser sem se preocupar com o haver.
Eu não entendia o mundo e fiquei com isso
martelando na minha mente
por mais de vinte anos
e só agora compreendi que entre o ser e o haver
há um permanecer cercado de finitudes
embora o anjo não tenha falado, tão precipitadamente,
em quimeras existenciais.


Loucura
  
Súbito
este olhar
no meio de luzes
olhar.

Súbito
este rio
tão loucamente
achando que é mar.

Súbito este encanto
no meio de encantos
se achar.

Súbita esta queixa
no meio de queixas
não se queixar.


Balanço das horas

Todos os seres dependem das horas,
pois são elas que ditam nossos passos
dependentes das horas
os seres vivem nos seus embaraços.

Há horas tristes, alegres
horas de acordar e viver
igualmente horas desprevenidas
horas também de morrer.

Os seres são escravos do tempo
e vivem assim na medida
tentando aprisioná-lo num invento.

Um vai bem alegre, outro entristecido
mistura-se numa queixa perdida
esperando envolver-se no indefinido.


Rotação

 Rola esfera
assim como fera,
pois nessa quimera
o homem vive e erra.

Rota espera
nessa quimera
roda a terra,
pois o homem
é a junção
da razão
com o coração.


Teu coração
  
Teu coração
pudera
sem
pretensão
ser maior que o mundo.

 Teu coração
pudera
ser ainda mais fundo.

Teu coração
esta
quimera,
entretanto,
não pudera
dizer
ao mundo
que de sua morada
os pesares passam
com ou sem aleivosia
no fim de um dia
logicamente
quando
se
tem
poesia.

Se de mim precisares de algo ficarei prazeroso em te servir, grande poeta.

Jacobina, terça-feira 24 de abril de 2012
Atenciosamente: Leon Cardoso da Silva


quarta-feira, 9 de maio de 2012

POEMAS ÁSPEROS



















PREFÁCIO

Há poucos dias chegou às minhas mãos este livro do poeta Leon Cardoso da Silva que é um jovem poeta baiano. Confesso que li os seus “Poemas ásperos” esperando uma produção aos moldes de João Cabral no sentido em que o título sugere, mas para minha surpresa estas asperezas são carregadas de pitadas de introspecção-filosófica misturada a uma intensa penetração metapoética, além de ser carregada de certo objetivísmo, ainda que este último seja em menor grau. Eu até que poderia dizer que há poemas bastante inspirados para distingui-lo do projeto poético de Cabral como fiz menção, anteriormente.

É uma produção que tem seu quê de originalidade vanguardista aliada a fortes tendências da produção literária histórico-nacional. Possivelmente este livro seja o que representa o maior grau de maturidade do poeta que, por sua vez, não pode ser mais encarado como um estreante na produção literária brasileira a bem falar de seus outros livros igualmente bem escritos “A inquietude de ser”, “Barco a vela”, “À procura da poesia”, “Chuva de pedra”, todos de poemas. Todavia, talvez seja no romance “O solitário Mário” que o autor se realiza mais plenamente escrevendo seu nome entre bons prosadores desta geração.

De qualquer forma, os “Poemas ásperos” parecem falar por si próprios, uma vez que seus poemas bastante sugestivos e audaciosos representam, indubitavelmente, o sujeito fragmentado em uma sociedade, também, fragmentada. Os poemas parecem recortes intencionais, ora representando este sujeito diante dos problemas do mundo, ora diante de si próprio como que se estivesse diante do espelho e visse o outro.

É por essas e outras que digo que o poeta, jovem poeta baiano está entre os poetas mais expressivos e atuais de nossa contemporaneidade. Tem o mérito de mesclar tendências literárias do passado e do presente para construir uma poética singular, expressiva e inquietante.

Marcos A. de Miranda


ALGUNS POEMAS DO LIVRO


QUERO UM POEMA

Quero um poema áspero
Que de toda natureza
Se desates
E em toda a sua extensão
Nas insutilezas
Leia-me a alma.

Quero o poema áspero
Nascido da aspereza
De naturezas castas.
Poema que deixe gosto
Que a cor desgasta
Onde o amor sentido
Com a razão se contrasta.

Poema como pedra,
Como chão seco e frio.
Poema como desertos
Que não conhece rio,
Mas que de tudo fale
E que diante das asperezas da alma
Não se cale.


INDELICADEZAS

Carne, sol, indelicadezas.
Fumaça de cigarros
Sopros de asperezas.
É por estas coisas
Que no século XXI
Os versos se petrificam
Embora a poesia
Continue sua realização mais pura
Nos sopros tênues,
Nas divagações
Não arrefecidas.


AUTO-EXPLICAÇÃO

Tento me explicar,
Mas tudo é em vão.
Este enjoo que tento disfarçar
E que quer me tornar mais fraco
Diante do espelho
Parece querer dizer que sou
Impuro ar comprimido,
Alucinações tortuosas
Cambaleio desafortunado da quimera.

Tento me explicar,
Mas no fim de tudo
Percebo que tudo
É em vão,
Mas não por falta de estudo
E sim porque dentro de minha explicação
No seu lugar mais fundo
Habita um deus inexplicável
e mudo.


DESENCONTROS

Desencontros! Sim!
É exatamente isso.
Minha vida e feita de desencontros
Silêncios nas horas incertas
Estrondos nas horas certas
Amores com todas as suas faltas de cores.

Desencontros! Marchas cansativas
Entre o desejo e a inoperância,
Entre a combatividade e a ignorância,
Entre o pós e o antes,
O a favor e o contra.

Desencontros entre dois seres,
Dois mundos,
Duas palavras antonimamente gêmeas:
O amor e a dor.


DESASSOSSEGO

O ar da noite não entra mais em meus pulmões.
A pulsação mais forte não passa
De milésimos de segundos
E meu coração parece andar de muletas.

Flácidos em suas entranhas
Parece que meus pensamentos
Cometeram crimes inafiançáveis,
Assassinatos cruentos
E se esqueceram de enterrar-me
No lugar mais fundo
Onde minha decisão não pudesse mais alcançar.

E por isso abro um jornal
E sequer há matéria que fale de meu mal,
De meu terrível padecimento.

Será que o mundo esqueceu
Que é preciso contar as tormentas,
Desvendar os males
Loucos,
Fúlgidos,
Terríveis,
Fugazes,
Presumíveis?


QUE A MÃO DESLIZE

Que a mão deslize
E vá construindo imagens obscuras,
Palavras intraduzíveis,
Pensamentos tresloucados.

Que a mão deslize
E sue frio,
E molhe o papel,
E rasgue as tormentas.

Que a mão deslize
E forme estrofes,
E descubra-se em movimentos,
E alce voos nunca antes alcançados.

Que a mão deslize
Sem muitos cuidados,
Sem muitas aleivosias,
Sem precipitações pensadas.

Que a mão deslize
Construindo juízos,
Arrebentando grades
Apagando a luz da lua cheia de vícios.

Que a mão deslize
E desenhe uniformes palavras
Que fale de homens e de coisas
Com todas as suas trepidações
Incessantes prolongamentos,
Mudas canções.

terça-feira, 8 de maio de 2012

A INQUIETUDE DE SER




















SOBRE A OBRA


Este livro foi escrito a partir do início de 2012 e finalizado em maio deste mesmo ano. Trata-se de um conjunto de poemas que busca uma medida acentuada de lirismo que é pouco explorado em nossos dias. Poemas que vão desde um romantismo comedido até as tendências de vanguardas.

Em outras palavras, estes poemas de Leon Cardoso podem ser definidos como um posicionamento do autor diante de uma contemplação poética do sujeito e do mundo e seu movimento também vai do imagismo cromático ao lirismo introspectivo-filosófico.

Dessa forma, isso não parece ser uma nova fase na poética do autor, que bem soube explorar estes aspectos em seus outros livros “À procura da poesia”, “Chuva de pedra” e, de certa forma, seu mais recente e muito interessante “Barco a vela”.

Em suma, o veio poético que perpassa este livro pode ser equiparado ao de poetas de grande valor para nossa literatura. Por se tratar de um escritor jovem esta obra poderá ser mais conhecida e reconhecida com o tempo, como ocorreu em muitos casos de nossa história literária. Mas isso não quer dizer que o livro não esteja repleto de poemas de alto valor literário e filosófico como eu havia me referido há pouco. Sem sombra de dúvidas este é um dos novos autores de maior espontaneidade e qualidade literária desta nova geração se bem dizer da poética pós-modernista.
Moacyr F. de Andrade

 
ALGUNS POEMAS DO LIVRO
 
 
DESINFORMAÇÃO

Bem, não sei
se a chuva molha este meu coração
se esta breve canção
conduzem-nos para as contemplações.

Bom, não sei
se estes versos serão entendidos
se estes pensamentos retorcidos
dirá em poucas palavras
todo dizer que haverá.

Bem ou bom, não sei
se este poema te falou
só sei que assim bem resumido
ele enfim acabou.


DRUMMONDIANO

No meio do caminho
uma pedra atrapalhou-me a passagem
e assim tão decididamente
chutei-a para bem longe.

No meio do caminho
caminho mancando.
É que a pedra me acertou o dedo.

Maldita pedra no meio.

ECOS

Anda quase vazio
vazio
este meu coração.

Anda quase vazio
vazio
esta minha indecisão.

Anda quase perdida
perdida
o eco desta canção.

Anda quase indevido
devido
esta falta de atenção.

Anda quase perdido
perdido
a luz que ilumina a estação.

Anda quase escura
escura
a vida que se perdeu na emoção.


A CHUVA

A chuva caiu com seus desgostos
e foi água pra tudo que é lado
só não alagou esta desordem
de meus pensamentos
e meus inventos.

Para molhar todas as vidas
seria preciso que este planeta
alagasse todos os dias
e os corações dos seres
não fossem escondidos
nos precipícios dos corpos.


COMPRA EXISTENCIAL












Dê-me trinta gramas de poesia,
um quilo de maresia,
um pacote de nostalgia,
e uma lâmpada para o dia.

Dê-me um frasco de emoção
o silêncio para esta canção
que não sabe acalmar este meu coração.

Dê-me uma dúzia de compaixão
meio quilo de sabedoria
e um saco de alegria.

Dê-me logo estas mercadorias,
pois minha alma está bem prevenida.
dê-me tudo que vou levar
e só voltarei pra pagar
se um dia eu compreender a vida.